Juazeiro do Norte, Ceará, Brasil, Sábado, 19 de Maio de 2012
 
Seg, 30 de Janeiro de 2012 09:22

Dilma faz projeto de governo; Lula de vida, diz Sebastião Nery

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Sebastião Nery, 60 anos de jornalismo, fala sobre o governo Dilma Rousseff, a inércia do PSDB e as pretensões de Eduardo Campos

“Dizem que Lula foi o presidente com o maior apoio popular, mas Getúlio é incomparavelmente maior”, garante o ex-deputado e jornalista baiano Sebastião Nery, 79 anos de idade, 60 dos quais vivendo e acompanhando intensamente os principais fatos da política nacional e internacional. Por coincidência, Nery nasceu no ano da Revolução Constitucionalista de 1932, considerada a primeira grande revolta contra Getúlio. De lá para cá, o Brasil experimentou cinco constituições e diversas reviravoltas políticas e institucionais registradas pela pena primorosa de Nery, cuja prática parlamentar e profissional possibilitou o acesso a alguns dos mais importantes personagens dessa história.
Nesta entrevista ao jornal O Estado, o experiente jornalista faz elogios à administração da presidente Dilma Rousseff, a quem louva por não ter submetido o governo ao arbítrio do PT e de Lula, e diz que falta liderança ao PSDB, que teria cedido a autoria de programas como o Bolsa Família de bandeja ao ex-presidente petista.

O Estado. Como avalia o governo Dilma?
Sebastião Nery. Eu tinha muito medo do governo da Dilma porque continuo tendo muito medo do Lula e do PT. Meu medo era que os dois fizessem aquilo que o Zé Dirceu ameaçou: que seria um governo não da Dilma, mas do PT. Não foi assim. Dilma não entregou o governo à decisão deles. O PT imaginava que ela ia fazer um governo de assembleísmo. A Dilma está, sim, governando, e eu tinha medo de que ela não o fizesse por causa dessa aliança partidária, já que, para governar, a presidente tem que fazer acordo com dez partidos, e isto implica fazer doações a todos esses partidos com dinheiro do Estado. Mas a Dilma tem ido bem, e o Lula e o PT não têm lhe atropelado muito.

O Estado. Qual a marca da Dilma neste primeiro ano de gestão?
Sebastião Nery. A seriedade. Claro que ela tem que negociar as pressões, é inevitável que os partidos sejam reivindicantes junto ao governo. Inclusive na crise relacionada à saída dos sete ministros, ela se saiu bem, afinal, não era fácil demitir um Palocci, por exemplo, que era o homem do Lula no governo, assim como não foi fácil demitir o Jobim. A demissão desses ministros é uma prova de que ela está governando. É preciso lembrar que o governo da Dilma é assentado em um punhado de mentiras. O Lula, com aquele talento para misturar Sílvio Santos com Chacrinha, vendeu para o País, junto com o PT, a ideia de que o Brasil não precisa mais do FMI, não lhe deve mais um tostão, e isso é uma mentira brutal. Deu-se a impressão de que o Brasil está nadando em dinheiro, quando não está. No ano passado, a Dilma ficou mal porque não deixaram colocar no Orçamento um tostão a mais para a Saúde, que é o grande problema brasileiro. Então, qual a saída para a presidente? A não ser que ela seja um Néstor Kirchner, e ela não é. Kirchner foi o primeiro sujeito que chamou os banqueiros para conversar e disse como é que seria feito. ‘Vocês, banqueiros, dizem que nós devemos 100 bilhões, mas nós só devemos 25, o resto é juro sobre juro e nós não vamos pagar’. E não pagou! Esse é o motivo pelo qual a Argentina tem crescido a oito, nove por cento ao ano, enquanto o Brasil não consegue crescer 3%. Se a Dilma fosse fazer isso, ela aguentaria a avalanche de críticas nos editoriais dos principais jornais, as críticas acadêmicas? Deixar de pagar os juros que os banqueiros querem é calote, mas deixar de prover o SUS não é calotear o povo brasileiro?

O Estado. Mas a Dilma teria força suficiente para mudar este modelo econômico?
Sebastião Nery. Eu acho que ela não vai fazer. E não vai fazer porque o PT não quer, o Lula não quer, e também não sei se ela mesma quer fazer. Para eles, o interessante é permanecer no poder. É uma mentira dizer que a grande luta no País é entre PT e PSDB. A grande luta é entre o Brasil e os banqueiros. Hoje quem dá a palavra final é o sistema financeiro, e o mundo está governado pelos banqueiros. Há alguma força política no Brasil, seja o PT, ou o PSDB, capaz de enquadrar os banqueiros? Eu acho, todavia, que a Dilma tem mais energia para dobrar e negociar do que o Lula faria. O Lula faz um projeto de vida, enquanto a Dilma faz um projeto de governo.

O Estado. Esse projeto de vida do Lula incluiria uma candidatura a presidente em 2014?
Sebastião Nery. Aí já seria uma questão de luta armada. Como é que o Lula faria isso? Dando um golpe? A presidente da República tem o direito legal de ser candidata à reeleição. Ou ela abandona e vai embora, e fica sujíssima perante a História, ou ela é candidata. Que o Lula espere por 2018. Qualquer golpe que a opinião pública imagine que ela esteja sofrendo complica a própria campanha eleitoral do Lula, se ele quiser ser candidato. Esse negócio de que o Lula é um Dom Pedro I não existe... Todos os que se acharam mais poderosos do que a normalidade da Nação acabaram se ferrando. Não acredito que o povo brasileiro aceitaria normalmente que o Lula e o PT se reunissem e dissessem “sai pra lá, Dilma”. Não há ninguém tão poderoso. Dizem que Lula foi o presidente com o maior apoio popular. Mentira. O Getúlio é incomparavelmente maior do que o Lula.

O Estado. Para o senhor, a popularidade do Lula se baseia especialmente em quê?
Sebastião Nery. A grande catarse do Lula foi o Bolsa Família, por causa da arrogância do PSDB. Os tucanos nunca quiseram dizer que estavam implantando um projeto popular e populista, mas absolutamente necessário, como é o Bolsa Família. Eles acabaram entregando na bandeja para o Lula. O Bolsa Família é o Bolsa Gás, é o Bolsa Escola... Os tucanos fizeram tudo, mas esqueceram de chamar um mineiro, e aí o gênio foi o Patrus Ananias, que disse: vamos juntar tudo num programa só. Os tucanos tinham vergonha cultural de parecerem populistas. O Bolsa Família é uma coisa fundamental para o povo, mas o PSDB não faturou isso.

O Estado. O Plano Real é outra obra mal faturada pelo PSDB, como alguns tucanos têm admitido?
Sebastião Nery. O Brasil moderno nasceu numa decisão aparentemente louca, mas que a História provou que não era, do Itamar Franco dar um telefonema ao Fernando Henrique e dizer, sem nem convidar: “amanhã de manhã sai no Diário Oficial sua nomeação para o Ministério da Fazenda, venha pra cá”. O Fernando Henrique criou então a comissão que criou o Plano Real. Se você puser o Plano Real defronte do Bolsa Família, não há comparação. O Plano Real é um programa de Nação. Pela primeira vez no último século, o País controlou a inflação, criou a moeda forte e começou a negociar internacionalmente de igual para igual. O Plano não foi uma criação exclusiva do Fernando Henrique, claro. Nisso entrou o Pérsio Arida, o Pedro Malan, que é um craque, um sujeito sério; o Edmar Bacha, o Gustavo Franco. Essa turma se reuniu e bolou o Plano Real. E o PT foi contra o Plano. O Brizola foi contra.

O Estado. O que se vê é o PSDB caminhando para a irrelevância. Por que isso?
Sebastião Nery. Porque não existe partido sem liderança e sem povo. O que há é que o PSDB é um covil de serpentes. Aí você diz: “o PT também é”. Sim, o PT também é, mas o PT se juntou na hora que os banqueiros chamaram o José Dirceu e disseram que era para fazer a Carta ao Povo Brasileiro, para que eles não vetassem o Lula. Até hoje é um mistério: quem escreveu a Carta ao Povo Brasileiro? Alguém escreveu dentro da Febraban. Eu acho que foi o Maílson da Nóbrega. É um grande documento, que garantiu a eleição do Lula. E tinha que haver mesmo aquele documento, porque você não podia entregar o País, já em dificuldade, ao PT, ao Rui Falcão, que é um radical, nem ao Zé Dirceu.

O Estado. Eduardo Campos. Qual é a dele?
Sebastião Nery. O Eduardo Campos é um Aécio Neves de verdade (risos). O Aécio fez um brilhante governo em Minas, mas ele não tem a característica do sujeito que brilha para conquistar as coisas. O povo quer um político que tenha posições claras. O Aécio gastou um ano no Senado e ninguém sabe o que ele pensa. A gente pensa que ele é uma liderança, mas não é. O Aécio de verdade é o Eduardo Campos. O projeto do Eduardo é de candidatura contra o PT, porque o PT evidentemente terá candidato depois de oito anos de Dilma. Até lá o Zé Dirceu pode ter sido absolvido por seus pecados ou ter cumprido sua pena.

O Estado. O Dirceu diz que quer ser julgado o mais rápido possível pelo STF por estar convicto da absolvição.
Sebastião Nery. Não se pode botar a mão no fogo por instituição nenhuma, mas eu quero ver pra crer se o Supremo não vai condenar o Dirceu. Vai. Ele é o chefe da quadrilha, quem disse foi o procurador Geral da República. Não acredito na absolvição do Dirceu. O ministro Joaquim Barbosa é um sujeito sério, e o Supremo não vai se expor perante a Nação fazendo uma sacanagem brutal dessas.

Última modificação em Seg, 30 de Janeiro de 2012 14:59

1 comentário

  • Link o comentário antonio boe Ter, 15 de Maio de 2012 07:09 postado por antonio boe

    Um Supremo que defende bicheiro...Imaginem que bicheiro tem defesa. esses são os homens das instituições. Que horror!!!

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